terça-feira, 26 de janeiro de 2010

FICHAMENTO N.O 3


O velho e o mar, de Ernest Hemingway



Tô tensa.

É que criticar a Fernanda Takai, literariamente falando, não é a mesma coisa que criticar Ernest Hemingway. Ou é?

Bom, o que eu sei é que eu nunca havia lido nada do lendário escritor da geração perdida. Nadinha.

Então eu fui começar justamente por aquele livro que é considerado a sua obra-prima: O velho e o mar.... (ganhador, inclusive, do prêmio Pulitzer de 1953...)

Daí, vcs podem perceber o por quê da tensão...Simplesmente eu não tenho as melhores coisas a falar um livro que é considerado obra-prima de um autor que é considerado genial.

Mas graças ao grande Nelson Rodrigues eu posso ficar em paz comigo mesma, afinal “Toda unanimidade é burra!”.

Sinceramente: achei médio. Bem médio mesmo. (e agora que caiam as pedras na Geni ...rs)
É claro que ando desconfiando do tradutor, mas a probabilidade maior é a de que eu não gostei porque não gostei, e pronto.

A história é boa. O narrador tb. O ritmo é melhor ainda. É o tipo de livro que você lê com uma espada no pescoço. Dá até falta de ar, vez em quando.

Mas então o que foi que eu não gostei?
Deixa eu explicar isso aqui. O que me fez desgostar do livro não é algo que exista nele, mas é o que deixou de existir... Sério.
Pela mística toda criada em torno do Hemingway, achei que ele poderia ter feito mais. EXPECTATIVA é uma bosta, né?

O enredo conta a história de Santiago, um velho e sábio pescador que passa 84 dias sem pescar nada, até dar de cara com o demônio em forma de peixe. Na verdade, não há qualquer alusão sobre o coisa ruim, mas o peixe de mais de 50 metros de comprimento travará uma luta infernal com o pobre pescador.

Talvez Heimngway quisesse dizer algo de como é o próprio processo de escrever... de como é lutar com um diabo dentro e fora do próprio corpo. Talvez eu comece a entendê-lo melhor...Talvez eu tenha gostado do livro mais do que eu e o meu demônio sabemos... Talvez.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

DIA 10 DE ABRIL DE 2007


Era uma tarde absolutamente normal: preguiçosa e inútil como todas as tardes daquele ano, exceto pela nova perspectiva que se abria ainda timidamente.

Depois de um longo e tenebroso verão, seu orientador dava sinais de que poderia lhe tirar do limbo existencial e de que teria algum prazer em continuar suas pesquisas sobre literatura e música e essas coisas todas que a gente chama arbitrariamente de cultura.

Ao seu lado sentava Paulinho, amigo de trabalho e confidente. Entre assuntos futebolísticos e lampejos de maldade vespertinos, pairava um silêncio na sala. Era apenas nesse instante em que Luiza e Paulinho se afastavam mundos de distância para alimentar suas necessidades “internetísticas”.

Luiza vivia um momento especialmente bom. Aquela coisa toda de autoconhecimento, fome de informação, intimidades com os amigos, ampliando o círculo de pessoas realmente interessantes, disposição para viver...

Além disso, começavam os primeiros questionamentos que a libertariam de uma doce prisão.

Apesar do caos interior, Luiza estava tranqüila, certa de que resolveria aquilo ainda nos vinte e poucos anos.

Entre uma passadela e outra pela rede, achou algumas coisas relacionadas com a pesquisa. Na verdade, estava mesmo empenhada em levar aquilo adiante. Era um dos universos que se abriam para ela, e havia qualquer coisa de excitante que não a deixava em paz. Queria saber, queria ouvir, queria conhecer... Queria comer com garfo e faca.

Era um bate-papo com algumas pessoas que já tinham chegado muito antes que ela. Oh, minha Nossa Senhora da pesquisa atrasada, será que eu tenho pique de sair do centro da necrópole e ir assistir um bate-papo, desses que a gente não pode falar nadinha, porque só quem conversa é quem já chegou na casa 8 da estradinha?

Por uma trama mal feita do destino, enquanto Luiza pensava em “ser ou não ser, eis a questão”, recebe uma ligação que pode ter mudado todo o resto da sua vida:

- E aí, sua louca, tudo bem?
- Ah, tirando o ruim, o resto tá bom, né?
- Então, vamos num show do Zeca Baleiro?
- Quando, Rê?
- Semana que vem .... mas tem que ir comprar o ingresso hoje.
- Ah, sério mesmo? È que eu tenho um bate-papo pra ir... sobre a minha pesquisa... Aquela lá do Itamar, te falei?
- Quem é Itamar?
- Ah, deixa pra lá...
- Que horas é seu bate-papo? É rapidinho... a gente compra ali no Sesc Vila Mariana mesmo.

Caralho. O pseudo bate-papo era justamente no Sesc Vila Mariana.
Depois disso não houve mais resistência da parte “preguiçal”, afinal de contas sinais eram sinais, e estava muito claro que o universo queria que Luiza parasse de enrolar e tirasse definitivamente sua bunda gorda da cadeira e começasse a escrever alguma coisa que prestasse sobre seu objeto de pesquisa.

O que Luiza não sabia era que estava prestes a conhecer um outro objeto. Muito mais fálico e muito mais fatal.

“17h, e eu começo a ser feliz. 17h15, I want to be free. 17h30: hora de cair fora, respeitando o fuso horário. Merda, sou proletário”.

Antes de encontrar Renanda, Luiza passou pelas mesmas vitrines cotidianas, olhando tudo com os sentimentos de sempre: ora desdém, ora desejo acompanhado de um sacode “vc não pode comprar isso agora”.
Mesmo assim não resistiu e entrou numa lojinha de sapatos, onde havia escrito em letras garrafais a palavra mais milagrosa que ela conhecia: L I Q U I D A Ç Ã O!

Eliana, sua chefe e incentivadora de consumo, estava bem ali, dando o maior apoio para a compra de um tênis all star laranja fosforescente.

Como já estava atrasada, comprou o tênis e pagou. Um minuto depois se arrependeu: “onde é que eu vou usar este tênis, minha nossa senhora das compras desperdiçadas?”

Bem, se o problema era esse, resolveu resolver ali mesmo: tirou o tênis gasto e calçou o laranjão que, sendo novo, era ainda mais laranja e brilhante e fosforescente.

Assim que saiu da loja, sentiu o mundo olhando para seus pés. Mas, e daí? Luiza não era menina de obviedades... Nunca fora.

Entrou no metrô, e só foi lembrar de que estava com uma laranja incandescente nos pés quando encontrou Renanda:

- Meu Deus, como vc tá moderninha!
- Ô! Você nem sabe como...

Compraram o ingresso e Luiza ainda insistiu:

- Rê, vamos à palestra comigo.
- Não dá, amiga. Tô com fome e nem sei quem é esse tal aí da sua pesquisa... mas boa sorte. E não se esqueça de que semana que vem vamos o Baleiro.

Entrou na sala de bate-papo. “Nossa, tudo isso de gente conhece o Itamar? Meu Deus, eu devo ser uma ignorante mesmo. Em que país do axé eu estava todos esses anos?”
Na verdade não tinha muitas pessoas, mas Luiza que sempre achara que tinha bom gosto musical nunca tinha ouvido falar de Itamar até a alguns meses... como tanta gente assim sabia dele? É... realmente eram universos novos que se abriam.

De repente, ao lado, um desses monitores do Sesc. Lindo. Lindinho, na verdade.
“Puts, hoje era dia de eu querer usar um tênis laranja fosforescente?”.
Sentiu vergonha e tentou encolher o pé.... mas percebeu que não dava pra se esconder um pé número 39 assim impunemente.

Começa o bate-papo. Exatamente como ela previra, com algumas variações. O assunto era legal. As informações pipocando na caderneta. Entre uma fala e outra, pausa para uma olhadela no lindinho do Sesc. “Meu Deus, vou trocar de tênis. Mas e se ele já reparou este laranjão? Vai achar que eu não tenho personalidade...”

De repente, uma fala mais eloqüente. Um cabeludo no palco. Escritor. Um livro que tinha muito a ver com tudo o que Luiza queria saber. Mais eloqüência... uma força pessoal impressionante. Esqueceu o lindinho do Sesc. Concentrou-se no Cabeludo.

Ao final da conversa, Luiza queria comprar o livro, mas lembrou-se de que era pobre e não tinha assim R$ 50,00 na carteira para uma eventualidade. Eventualidades de Luiza se resumiam a esquecer o bilhete único em casa... e então levava sempre consigo 10 dinheiros, o que era o suficiente.
Por um instante, lembrou-se de uma expressão de um amigo do mundo gay: será que ele aceita cu? Não, não poderia propor o cu. Pelo menos, não logo de cara.

- Será que eu poderia pegar seu contato? É que eu gostei muito do livro, mas não tenho dinheiro agora.?
- Claro, anota aí.

Passou email. Telefones. E uma senha para o céu e o inferno.

Naquele instante, Luiza nem podia imaginar o tudo que viria pela frente. Na verdade, Luiza não podia imaginar nada. Estava tomada por aquele sentimento que imbecializa as mulheres. Só uma coisa ficou em sua cabeça pelos anos seguintes: “Será que ele percebeu o meu tênis laranja?”

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

FICHAMENTO n.o 2



1933 foi um ano ruim, de John Fante

Esqueçam todos os heróis de livros adolescentes: Holden Caulfield, Rusty James, o Motoqueiro, Ponyboy.... ninguém chega aos pés de Dominic Molise, de 1933 foi um ano ruim, de John Fante.

Caramba, que livro engraçado! Eu me diverti deveras andando de uma linha a outra do metrô. Em alguns momentos, eu até gargalhei (loucamente, na frente daquelas caras plácidas que andam por aí no transporte publico de são Paulo).

Mas deixa eu explicar isso direito: não é uma história engraçada, não é nada leve... Pelo contrário: é mais um livro que traz o desespero da flor da nossa juventude aos 18 anos. Mas John fante é primoroso; este sim primoroso.

Pra falar a verdade, o cara é brilhante. É aquela coisa que você lê e dá uma puta inveja de não ter sido você o escritor, manja?

E isto porque eu ainda não li o seu Pergunte ao pó, cujo personagem é Arturo Bandini, um outro jovem arruinado que sonha em ser escritor (oi? Qualquer semelhança é mera coincidência!)

A história é basicamente isso: um garoto pobre, filho de imigrantes italianos, em plena recessão, que sonha em ser jogador de basebol. Seu pai, no entanto, quer que ele se torne pedreiro, como ele.

No meio da trama, deliciosos “diálogos” de Dominic consigo mesmo, num exercício de pensamento livre fodido. Resumindo: MUITO BOM.

Agora, quero ler Pergunte ao pó. E bem rápido. Sem procrastinar.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Minha vida num delay!


Delay: o termo técnico usado para designar o efeito retardo de sinais em circuitos eletrônicos; geralmente o atraso de som nas transmissões via satélite.

Sabe quando vc tá vendo aquela repórter bonitona falando na TV e tem a sensação de que o som tá chegando depois? A boca fica estranhamente se mexendo e você não consegue sincronizar seus movimentos com aquilo que você ouve... Pois bem, isso é o delay no mundo da imagem e do som.

No mundo da minha vida, o delay tem a ver com uma outra palavrinha....

P R O C R A S T I N A Ç Ã O!

Que eu sempre fui a “ah, deixa que eu faço depois”, isso é verdade. Mas as coisas começaram a piorar consideravelmente de uns anos para cá.

Na verdade, as coisas degringolaram de vez quando eu finalmente entrei na vida adulta, coisa que eu procrastinei bastante, por sinal.

Com quinze ano eu já era a mestre guardiã da frase: “por que fazer hoje aquilo que eu posso fazer amanhã?”. Com 18, aperfeiçoei meu repertório: “por que fazer amanhã aquilo que eu não vou fazer nunca?”. Aos 26, cheguei à perfeição: “por que fazer?”.

Com muito esforço, consegui fazer essas coisas que todo mundo faz sem saber por quê: fiz faculdade, arrumei emprego decente, tô até fazendo pós-graduação... mas todo o resto da minha vida se instalou no caos.

A sensação que eu tenho é que eu to num eterno delay, resolvendo coisas atrasadas que não terminam nunca. Só que a vida não para e enquanto eu resolvo o que já deveria tá resolvido, outras coisas vão acontecendo. No final, nada está sincronizado e a simples tarefa de viver se transforma numa arrastar de correntes.

Achei uma explicação bem interessante sobre procrastinação:

“... Isso realmente acaba se tornando um problema sério, e é difícil sair dele. E o que piora o problema é quando sempre tudo acaba dando certo. Procrastinar é uma arte; para se tornar mestre dela, basta se tornar mestre na habilidade de saber exatamente o ponto exato onde se deve parar de procrastinar para fazer o que você tem que fazer, de forma que consiga fazer.
Se você procrastina demais e acaba se ferrando por causa disso, você aprende a lição e acaba parando de procrastinar. Se você procrastina de menos, bom, então você não tem um problema.

Agora, se você procrastina o tanto exato, você estará preso para sempre. Você sempre irá maximizar a procrastinação. Você vai ficar vendo filmes o dia inteiro para de noite estudar o tanto exato, nas últimas horas exatas, para passar na matéria. Você vai ficar lendo notícias o dia inteiro para na última hora do expediente fazer aquela coisa pendente e terminar no momento exato em que seu chefe perguntar se ela está pronta.
Você se torna um mestre na arte da procrastinação quando perceber que, se tivesse começado aquelas coisas que você adiou tanto apenas 5 minutos mais tarde, teria se ferrado monumentalmente.
Agora, para as demais pessoas, isso pode parecer uma coisa boa. O que pode ser melhor do que demorar o tempo exato para fazer as coisas, mesmo que de última hora?
O grande problema é que procrastinadores sofrem de culpa. MUITA CULPA.

Enquanto procrastinam, eles não conseguem fazer outras coisas produtivas, úteis ou divertidas. Eles ficam checando e-mails. Lendo feeds. Vagando no Orkut. Ou seja: procrastinadores são as pessoas que administram seu tempo da pior forma possível.
E é duro sair disso. É quase um vício. Você sabe que aquilo é irracional, sabe que não faz sentido, mas você não consegue parar.”

E daí tudo vira delay. Tudo no tempo errado.


E correr atrás do prejuízo é fodaaaaaa! Cansa pra burro, e chega uma hora que vc desiste. Eu já tentei por minha vida em dia duzentas vezes. Só que o delay é fogo!


Retomar a consciência que vc precisa para resolver um problema que este já aconteceu há seis meses é muito mais difícil do que estar desperto e consciente para resolver no momento em que se pode. Não sei por que eu ainda não consegui entender isso. Ou melhor: não sei por que estou procrastinando essa mudança de atitude?

Mas este post é para dizer que eu vou tentar mais uma vez. Mais uma vez eu vou parar de procrastinar. Ou tentar de parar. Mais uma vez. Só mais uma. Amanhã.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

FICHAMENTO No. UM


Nunca subestime o poder de uma mulherzinha, de Fernanda Takai.

Literariamente falando, estreei meu ano com o livro de contos e crônicas da Fernanda Takai, vocalista e musicista do Pato Fu.

Ok, eu gosto de Pato Fu. Ok, eu gosto da Fernanda Takai. Mas do livro eu não gostei muito, não. E não foi porque a Fernanda escreve mal ou nada disso. É que é um relato quase que confessional, com passagens autobiográficas... Foge muito do que eu espero para um livro de contos... Para crônicas, até tudo bem... mas mesmo assim não é primoroso.

Mas a Fernanda Takai, idealizada nos meus sonhos, nem precisaria escrever nada primoroso para eu continuar gostando dela, e continuar gostando das músicas dela.

Só que... durante a leitura eu descobri que a Fernanda Takai idealizada por mim é mais legal que a verdadeira. Ou pelo menos é mais legal que a narradora do livro (no caso de tudo não passar de uma forma de “se outrar”)

Tá, eu não vou ficar falando mal de alguém que eu nem conheço pessoalmente, mas eu tenho massa encefálica e penso: logo existo! E no meu humilde existir eu acho chato pessoas super organizadas e perfeccionistas, que não gostam de futebol e que reclamam de quem bebe cerveja. Acho chato mesmo. Prontofalei.

Mesmo assim, para uma tarde de preguiça, o livro reserva alguns “contos” e algumas crônicas legais...

A que eu mais gostei é a que leva o mesmo nome do livro e fala da Fernanda lendo um livro da Clarice Lispector, sob outro pseudônimo, escrevendo coisas de mulherzinha para mulherzinhas.

Isso eu achei bem legal. Primeiro porque até a Clarice tinha seu lado mulherzinha e até a Fernanda Takai gosta de ler coisas de mulherzinha. UFA, eu tô salva!

Fui atrás de informações sobre o livro, que se chama Só para mulheres, e descobri que a Clarice escrevia sob três pseudônimos para três jornais diferentes (o livro reúne textos escritos para colunas jornalísticas): Tereza Quadros no Jornal Comício, Helen Palmer no Correio da Manhã e Ilka Soares no Diário da Noite. São questões relacionadas a beleza, amor, maternidade e vida doméstica... Vejam vcs mesmo um trecho:

“Sejam vocês mesmas! Estudem cuidadosamente o que há de positivo ou negativo na sua pessoa e tirem partido disso. A mulher inteligente tira partido até dos pontos negativos. Uma boca demasiadamente rasgada, uns olhos pequenos, um nariz não muito correto podem servir para marcar o seu tipo e torná-lo mais atraente.Desde que seja seu mesmo.” (Helen Palmer)


É, no fundo, no fundo, mulher é mulher. E vice e versa.

Portanto, NUNCA SUBSTIME UMA MULHERZINHA....


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

TEM ALGUÉM EM CASA?


- Toc, toc, toc!
(silêncio)
- Ei, tem alguém aí?
(silêncio)
- Tem alguém am casa?

Vamos combinar que é um saco ir visitar uma pessoa e não encontrar ninguém em casa. Evidentemente que com todas as masters tecnologias de hoje isso acontece pouco. Isso porque o fator surpresa foi definitivamente limado de nossas vidas. Ninguém levanta sua bunda gorda da poltrona e atravessa a cidade sem antes dar uma ligadinha, mandar uma mensagenzinha... NO SURPRISES.

Mas até aí, tudo bem, né, porque ninguém gosta de perder tempo, nem de ficar com cara de concha. Mas por que eu to falando disso?

Porque eu tava lendo um texto Budista sobre passagem de Ano e tals (ainda na tentativa de “entrar no clima”) e achei nas minhas coisas uma reflexão muito interessante. Na verdade, eu já tinha lido e relido este texto algumas vezes, mas me lembrei de que ele era baseado numa palestra proferida justamente numa virada de ano.

E me lembrei também de uma coisa muito legal. O começo do texto diz assim: Quando você vai a uma casa e você quer encontrar alguém nela, você pergunta, “há alguém em casa?”. E se alguém diz “sim”, então você ficará feliz. Você não quer ir a uma casa onde não tem ninguém. Muito frequentemente nós não estamos em casa. Estamos perdidos em nossos pensamentos, nossas preocupações, nossos projetos, nossa ansiedade, nosso medo. Nós estamos completamente perdidos. Não estamos lá para ficarmos a par do que está acontecendo.

Puts, toda vez que leio este texto fico impactada como a primeira. Quantas vezes eu não estou em casa? Quantas vezes tudo o que eu sou não passa de um simulacro social ou uma holografia? Quantas vezes eu estou falando com o “chuck”, em vez de alguém? Quantas vezes eu estou falando com um copo de original?

Isso realmente me bota louca, mas como diria Andersen, é a mais pura verdade. Na maioria esmagadora das conversas e diálogos, alguém não está em casa.
A maior parte do ano, não estamos em casa. A maior parte da vida, não estamos em casa. Que merda!

Mas o texto, que é super bacaninha, dá alguns toques sobre o que fazer – segundo a filosofia budista: fazer o que for preciso para ficar presente no aqui e no agora, pois muitas vezes o nosso corpo está aqui, mas nossa mente está em outro lugar.
(...)
A prática oferecida a nós pelo Buda não é estar no piloto automático, mas a prática da consciência, da vida consciente.
(...)
O Buda é alguém feito de plena consciência, concentração, e insight. Plena consciência, concentração, e insight te trazem liberdade. A prática da plena consciência o ajuda a viver sua vida. Plena consciência nos permite reconhecer os pensamentos negativos e tocar as coisas positivas. Temos de produzir outros pensamentos que sejam dignos de um praticante. Um tipo de pensamento que traga felicidade. Você não é uma vítima de seu pensamento.
(...) O maior sucesso, o mais significativo tipo de sucesso é a liberdade. Nós temos que lutar por nossa liberdade. E não é indo para algum lugar, ou para o futuro, que temos liberdade; é exatamente no aqui e agora. O modo de começar é ficar presente, ficar vivo, ser você mesmo em todos os momentos.


Então é isso. Estou indo de volta pra casa.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

ENTRE OS DENTES...

Aprendi com a Primavera a me deixar cortar e voltar sempre inteira.
Cecília Meireles

É Ano Novo e eu deveria fazer algum post falando dessas coisas de expectativas e tal. Pelo menos é o que 90% das pessoas estão fazendo agora... Mas, pra falar a verdade, eu ainda não amadureci meus desejos para este ano. Tô num mix de “faxinão” e “bode eterno”. Faxina de tudo que precisa ir para a lata do meu lixo sentimental e bode de todo o “mais do mesmo” da minha vida.
Ainda não tô vendo saídas muito nítidas no quesito “vou resolver as coisas”, e isso me desestimula um pouco na tarefa de fazer planos. Tá tudo muito nebuloso...

Além disso, ter vinte e poucos, muitas neuroses e pouco dinheiro têm me enlouquecido levemente nos últimos tempos.

Mas, na real, a pior loucura que eu tenho enfrentado é a falta de disposição. A pior parte tem sido encontrar um sentido em coisas que eu já não acredito mais. Isso é foda. Pode entrar 2010, 2011, 2050 que não vai ter jeito. Eu já sei o que eu preciso fazer. Só preciso renovar essa energia pra ter coragem.

Agora, neste exato minuto, lembrei-me de uma música dessas fodidas que entram na gente como uma faca, cortando carne, músculos e ossos.

É um poema belíssimo de João Apolinário, musicado pelo filho João Ricardo, e gravado em 1973 pelos Secos e Molhados. Interpretada divinamente por Ney Matogrosso. Ouvir essa música e não morrer é impossível. Já ouvi uma 853 vezes, e morri em todas. Dói pra caramba, mas é redentor.

Acho que todo começo de ano é um pouco assim pra mim... Eu tenho que morrer um pouco pra renascer com algum vigor.

E como diria meu velho amigo César Polvilho, ESCUTA, VAGABUNDO!
(Vai a letrinha de lambuja)

http://www.youtube.com/watch?v=oIbled8a3lY&feature=related


Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera.

sábado, 2 de janeiro de 2010

MEDO?

Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.

Temer o amor é temer a vida e os que temem a vida já estão meio mortos.



Eu sempre fui medrosa de profissão. Os medos mais absurdos me acompanharam durante toda a minha vida. O primeiro de todos, que eu me lembro com bastante clareza, era desses que vêm de fora para dentro: uma flor.


Eu tinha tanto medo daquela flor que preferia gastar minhas lindas perninhas dando uma volta gigante no quarteirão a ter de passar embaixo daquela árvore. Agora me perguntem: de que raios veio um medo tão forte de uma coisa tão inofensiva? Não sei.
Talvez do mesmo lugar em que saiu meu medo de borboleta. Put a keep a real! Eu morria de medo de borboletas... E esse medo logo cresceu e se transformou em medo de tudo o que voa. Infernal!


Nessa mesma época, apareceu um medo de outro tipo, aquele que é de dentro pra fora: eu comecei a ficar com um medo enorme da minha mãe me esquecer na escola e nunca mais ir me buscar. Quando ia dando o horário da saída, meu coração apertava dentro do peitinho da garota de cinco anos. Escrevendo isso, penso comoo deveria ser hilário para as “tias” observarem as carinhas apreensivas das crianças esperando pelas suas mamas. Mas um dia minha mãe me esqueceu mesmo. Não, na verdade ela não me esqueceu, mas demorou tanto que eu acreditei que nunca mais eu ia vê-la. Daí, as coisas ficaram piores, muito piores. Todos os dias, antes de entrar na escolinha, eu já pensava como seria a hora da saída. O dia inteiro eu ficava com pensamentos mórbidos em relação àquilo tudo. Pensava insistentemente que ia acontecer aquilo novamente. HORRIVEL. À noite, o medo era outro: o de meu pai não chegar em casa. Apavorava só de pensar que alguma coisa poderia acontecer com ele. Enquanto ele não virava a esquina da rua da minha casa, meu coração continuava aflito. Em resumo, eu entrava na escola às 12h e saía às 17h. Cinco horas de medo. Depois, chegava em casa às 17h30 / 18h e esperava meu pai chegar até as 20h. Mais duas horas de medo. Mais resumido ainda: eu morria de medo de tudo.

E eu fui crescendo e meus medos também. Algumas coisas perderam o efeito aterrorizante, mas o tempo e o mundo trataram de colocar outras maiores em seus lugares. Medo de doença, medo de desagradar, medo de machucar, medo de desapontar, medo de inferno, medo da solidão, medo de ficar feia e nunca melhorar a cara de adolescente, medo, medo, medo...

Hoje eu tenho a convicção de que muitos dos medos estiveram / estão relacionados com a culpa, um outro tiro que eu levei no coração quando eu nasci. Mas isso é um assunto muito mais complexo, psicanaliticamente falando.

Mas o problema é que sendo eu uma medrosa acabei tomando raiva de outras pessoas medrosas. Não aquela raiva que faz odiar... Mas uma raiva de querer chacoalhar o sujeito, sabe?

Caralho, a gente só tem UMA VIDA. Uma, porra!!!! Qual é a dificuldade de entender isso? Qual é a parte que a gente não entendeu ainda?
Como diz a canção de um poeta louco aí, “o medo é uma droga pesada”; talvez a mais pesada de todas. E eu tô ficando com um bode de pessoas que se escondem atrás de velhas ideologias e que se prendem a coisas que não existem mais. Eu tô ficando com vontade de sumir, de nunca mais ter de me olhar, de ver a minha imagem refletida, nos olhos de quem tem medo de mudar... Tô ficando puta com quem tem medo de mim; medo de saber que eu posso ser uma coisa boa. É injusto, eu sei. Eu continuo com medo também. Mas é o que eu sinto... é como se eu esperasse que as pessoas fossem mais fortes que eu.... Apesar de que hoje eu sei que coragem não é nunca sentir medo.... coragem é fazer o que precisa ser feito apesar do medo. E eu faço.

Puts, mas que papinho furado, hein? Tá chovendo lá fora... E eu perdi o meu medo da chuva!

Vou encontrar a Lia, a outra Miss Lexotan, criada à minha imagem e semelhança.

Tchau.
Legenda: A primeira foto é do famoso quadro do Munch, conhecido como O grito. Mas na real, o nome verdadeiro dessa obra é O despero, e ela teve uma versão anterior a essa (que eu coloco na segunda foto). Munch viveu cheio de medo, desde criança, como eu. Acho mesmo que o melhor nome para o seu quadro é O desespero. Dizem que a primeira vez que esse quadro foi exposto foi numa exposição intitulada O AMOR. O quadro retrataria uma das fases desse sentimento , que vai desde o encanto inicial até o DESESPERO. Acho que ele entendeu tudo.