domingo, 20 de fevereiro de 2011

REABRI! YEAH!

e NADA melhor que um texto sobre drogras psicotrópicas. Ou não.

Cabelo comprido é o véu natural das mulheres. Pro caralho com os véus. E com as mulheres. Hoje é dia de tomar os remedinhos de receita azul. Já sei.Cortei o cabelo já faz um ano, e tem dias que ainda me sinto uma merda por causa dessa porra toda. Mas não é só isso. Nunca foi. Seria muito bom se o meu questionamento existencial se baseasse no tamanho do meu cabelo. Na verdade, o que o meu cabelo tem a ver com isso?Não sei se isso configura algum desvio moral, mas eu adoraria ter começado o dia com um prozac e uma dose de vodka. Uma não, duas.
Em vez disso, um comprimidinho de frontal, aquele tarja preta camarada que acalma, relaxa e te deixa com cara de idiota o restante do dia. Melhor cara de idiota que assassinar alguém. Será mesmo? O fato é que engoli a rodelinha lilás com o rosto posicionado devidamente atrás do meu computador, para que ninguém presenciasse o crime. É bom que ninguém saiba que eu ainda consumo esse tipo de drogas. Ou então é bom que todo mundo finja que não sabe que eu consumo esse tipo de drogas. Por que eu nego.
Ninguém paga a porra das minhas contas (nem eu). Mas a qualquer oscilação de humor, já vêm jogando na sua cara que você tem problema mental. Que é incapaz de conduzir a fucking crazy da sua vida, e que você vai acabar viciada num hospício. Oxalá, tomara que este dia chegue logo! Tenho mesmo pensado que seria muito mais digno para mim acabar sozinha, isolada e louca. Ninguém por perto. Nenhum risco para a espécie humana, que está “feridinha demais” para suportar meus rompantes. Para suportar qualquer coisa que não seja pasteurizada ou que não esteja no script. Seus amigos não querem um louco por perto. Seus pais não querem um louco por perto. Seus amantes também não querem. Embora eu possa apostar que eles sejam a causa primeira da sua loucura. Pode fazer o teste. Fique louca e seja excluída.
Não importa o quanto você esteja confusa e a sua cabeça latejando ainda por causa desse porre chamado juventude. Não importa essa vontade de deitar a cabeça no colo de alguém e falar sobre os poetas e os mortos. Não importa nada. Aliás, você não tem importância nenhuma pra ninguém.
Vontade de dar um tiro na cabeça. Na própria cabeça. Um impeditivo: não poder ver os miolos jorrando sangue e angústia por todo lado. Melhor não.
Outro frontal e essa coisa toda vai para o espaço. Tanta coisa eu queria que fosse para o espaço... Tanta. Eu juro.
Juro que hoje eu tomava uma anfetamina. Tomava várias. Pagaria qualquer coisa pra me livrar desse peso de ser inoperante. Inoperante no trabalho. Inoperante no amor. Inoperante na vida. Pagava, pode apostar.
Eu pagava pra nunca mais ter que sentir esse fim de mundo dentro de mim. Tomava Rivotril, Fluoxetina, Escitalopram, Sertralina. Tomava tudo com uma vodka. E esperaria. Esperaria a sensação de esquecer. De apagar. De sumir de uma vez por todas, que deve ser muito melhor que sumir aos poucos. Muito melhor que ver sua imagem se apagando lentamente daquela retina.
Hoje eu dormiria profundamente pra não ter que mendigar mais uma dose dessa droga pesada que é o amor.


(Texto inpirado no conto de Márcia Denser, do livro TARJA PRETA. Embora qualquer semelhança com a vida real não seja mera coincidência)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Fichamento n. 6 (OU NIILISMO, PARTE II)


Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev.

No começo do semestre passado conheci o Flavio. Lisérgico.
Uma dessas pessoas capazes de falar duzentas milhões de palavras em 10 minutos. Adorei logo de cara.

O fato é que ele estuda literatura russa, mais especificamente o Dostoievski. No nosso primeiro email trocado, percebi que ele assinava como Bazarov...

Curiosa, fui atrás do famigerado personagem.

Daí que, depois de algumas voltas, cheguei ao livro Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev.

Um livro bom. Na verdade, uma obra relativamente importante na literatura russa, que popularizou o termo niilismo, aplicado legitimamente ao protagonista Bazárov.

O enredo conta a história de dois jovens amigos (Bazarov e Arcadio), que retornam da capital para visitar suas familias no campo. Além da mocidade, trazem um ar niilista, que nega toda a autoridade e todo o princípio sem exame.

Só que no meio do livro Bazarov, irremediavelmente niilista, se apaixona e coloca em dúvida todo o princípio da negação.

Sem dúvida, uma forma que o próprio Turgueniev encontrou de criticar o niilismo radical.

É... realmente não dá pra negar todas as coisas. Infelizmente existem coisas que nunca nos serão indiferentes.

Por mais que meus pés me levem por este caminho, em algumas pedras eu sei que nunca vou pisar.

Foda 2.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

É O NIILISMO...!

De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não, nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
ue quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.

Miguel Torga.


Sei, lá! Às vezes acho que estou tomando uma estrada sem volta. Um caminho que vai me levar irremediavelmente para a abstração completa das coisas e das pessoas.
Não sei se isso é exatamente ser niilista ou coisa assim, mas é como se as coisas perdessem a importância e fossem sendo apagadas, cor por cor, de uma tela.
É tão estranho... É como se de repente o amarelo não fizesse mais parte, entende? Daí, nos primeiros dias, você sente uma falta do cacete do amarelo... Chora um choro doído porque já não pode ver mais nenhum tom de amarelo naquela cena. Fica mudo, sem latim.
Só que, depois de algum tempo, você - que não podia viver sem o amarelo - se acostuma com um mundo sem esta cor. E tudo bem.
Quer dizer, não é assim uma coisa “tudo bem”, sabe? Você fica mais triste, mais calado... mais “desamarelado”..., mas continua seguindo, porque a vida, as coisas e as pessoas são assim mesmo.
E então, quando vc já começa achar normal um mundo sem amarelo, some o azul. E depois o verde. E agora já não sabe se ainda há vermelho ou violeta...
É mais ou menos assim como eu sinto as coisas desaparecerem... Elas não são retiradas de mim abruptamente... Pelo contrário: elas vão indo, um pouco a cada dia, com o meu consentimento e tudo mais. Mas nunca ficam. Elas se vão mesmo. E pra sempre.

E é por isso que eu estou um pouco assustada. Porque eu sinto que não há volta. Não há retorno algum para as coisas que se perdem, o que me faz achar que invariavelmente eu chegarei no processo de abstração total.
Tudo vai se tornar indiferente para mim. A prova é que antes uma palavra que me provocava o choro e a comoção, hoje não significa nada. Sou capaz de repeti-la cem vezes sem sentir uma cócega de emoção. Prefiro, irremediavelmente o sono, que o embate. Prefiro o silêncio que o confronto. Porque também o confronto já me é indiferente. E dizer se torna a mesma coisa que não dizer. E no fim todas as cores estão desaparecendo, ou, pelo menos, estão desaparecidas. E na tela branca fica tudo muito confuso, e já não dá pra saber o que é céu e o que é chão.
E é por isso que eu me lembrei deste poema do Miguel Torga, que fala da dor profunda de se perder um pouco a cada dia...
No meu processo não há dor profunda. Há vazio profundo... e eu acho muito pior, quer saber. Porque quando vc sente uma dor, inevitavelmente há um movimento de reflexo, que o impede de prosseguir, que o impele do perigo... Mas quando não há dor, choro ou desespero, vc nunca sabe qual vai ser o próximo passo... qual a próxima cor que vai sumir...

Então, se isso não é o começo do fim, me digam o que é!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Fichamento n.o 5


A redoma de vidro, de Sylvia Plath

Identificação.
Fiquei meio aterrorizada em como me identifiquei com Esther Greenwood, personagem alter ego de Sylvia Plath, que se suicidou em 1963.

Começando pelo título do livro... A redoma de vidro. Sylvia escolhe este nome para designar um estado de depressão profunda. Bem, eu já estive dentro de uma redoma de vidro, e sei bem como é essa sensação de não ter ar para respirar.

Sei bem como é portar receitinhas azuis no bolso. Sei bem como é ficar presa dentro de si. Um escafandro...

No único romance escrito por Sylvia, a história é basicamente o relato da sua vida até conhecer Tedd Hughes, poeta e marido que a levou docemente para a beira da morte.

Esther é uma moça irremediavelmente entediada pela vida. Com apenas 19 anos sente que já teve algum dia um futuro brilhante, mas que isso não existe mais. (oi? Alguém se identifica aqui?).

Não consegue mais escrever, não consegue comer, não consegue dormir... não tem prazer em nada, acha todo mundo hipócrita, não quer trabalhar, tem medo, angústia, tenta com insucesso se matar, acha tudo uma grande merda, mas consegue continuar existindo no meio dessa patifaria toda... (hahaha. Isso nunca aconteceu comigo, viu?)

Na verdade, Esther Greenwood se tornou minha heroína juvenil super, só perdendo para o Dominc Molise (kkk). Estou convencida de que se não tivesse se matado, Sylvia escreveria outros ótimos romances, como esse.

Pra ser sincera, da poesia eu não gosto muito, não, mas sempre que isso acontece fico me perguntando se a culpa é do autor ou do tradutor.... Questões universais da literatura que me matam, sabe? hehe

Mas voltando ao assunto, este romance é ótimo. Primoroso.

Mas é amedrontador. Mesmo. Um frio na sola do pé, sabe? Como se a qualquer momento o gelo fosse se quebrar. Mas o pior é se reconhecer em cada linha... é saber do potencial destruidor que carregamos dentro de nós. Foda.
Depois de ler o livro, fui ver o filme Paixão além das palavras, com a Gwyneth Patrow. É bom. Razoável. O filme mostra a história de Sylvia após conhecer Tedd.
Então, se vc tiver vontade de conhecer Sylvia Plath, a combinação perfeita é livro + filme, necessariamente nessa mesma ordem.

Sabe, ler determinadas coisas dão uma injeção de ar dentro da redoma. Fato.

Thanks, Sylvia.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Genialidade gera gentileza! Yeah, yeah, yeah!




O gênio toca e sorri. Poderia comandar seus músicos com a mesma mão de ferro habitual de quem já atingiu os “píncaros da glória”. Poderia ser prepotente, mau-humorado e arrogante, afinal esses desvios – nos gênios – são facilmente perdoáveis. Em alguns casos, geram em nós, simples mortais, uma aproximação masoquista, um desejo de ver um deus zangado, no auge da sua fúria (e de sua fama), dando ordens, exigindo cem toalhas brancas e energéticos com a fruta da estação.

Mas este gênio de ontem apenas sorri. Concentra-se em seus movimentos e reproduz com alguma dificuldade suas obras-primas.

Ontem, depois de assistir ao show do Lanny Gordin, fiquei agradecida ao universo por ter me concedido a oportunidade de vê-lo tocar. E eu poderia ficar grata apenas por saber que o monstro está vivo e continua assuntando e mordendo a bunda dessas guitarrinhas chinfrins que a gente escuta todos dos dias no dial.

Mas o que me tocou profundamente foi a sua gentileza para tratar homens e instrumentos musicais.

Ele disse poucas palavras. Pouquíssimas, para a verborragia contemporânea. Acostumados que estamos ao “parlatório infindável”, poderíamos hora ou outra sentir falta de um “agora eu vou tocar essa, que foi gravada por tal pessoa”. Mas o Lanny, esse cara de palavras mínimas, começou a abordagem com um “boa noite, meus amores”, quase no final do show. E esse “boa noite” valeu cada milímetro de expectativa que eu tinha dele. Na verdade, cada milímetro de expectativa que eu ainda deposito em qualquer ser humano.

Depois de tocar em muitos dos discos considerados geniais da MPB, e de ser o preferido de mestres como Rogério Duprat, Lanny não possui nenhum traço de afetação.
O que Lanny Gordin, um dos guitarristas mais geniais da história dessa pátria desimportante, possui são sinais visíveis de seus problemas de saúde relacionados com a esquizofrenia, doença que nunca escondeu de ninguém.

Mas isso é tão pouco perto do que o Lanny se tornou. Isso é tão pouco perto do que as pessoas podem se tornar quando desejam ser honestas consigo e com os outros.
Na verdade, o que eu senti em relação ao show foi exatamente isso: uma honestidade profunda de um homem genial e gentil.

Sem discurso pronto, sem palavras suplicantes, sem tom de pedidos de aprovação, Lanny terminou dizendo: “muito obrigado, meus amores. Tenham uma boa noite, e a vida continua.”

Sim, Lanny, a vida continua. E continua mais bela e mais leve, por sua causa. E eu fiquei mais feliz. Feliz e confiante de que mesmo depois de muitos infernos pessoais a gente consegue sorrir francamente. Mesmo depois do gosto amargo da loucura e da solidão, é possível presentear aos outros com acordes e palavras de mel.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Fichamento n.o 4


A oeste de Roma, de John Fante


Fichamento n.o 4.

A oeste de Roma, de John Fante.


CA RA LE O! Mais um puta livro bom de John Fante...
Meu, sinceramente, porque nos mandam ler José de Alencar na oitava série? Qual é o propósito de nos torturarem com a descrição da porra da pata da gazela?

Não consigo entender porque garotos e garotas de quinze anos não leem histórias inteligentes, capazes de nos dar uma mínima ideia do que é a vida real: bebedeiras, sexo, violência, medo, explosão, momentos de dor e de alegria....

Puts! Ficam enchendo a nossa cara com os famosos clássicos.... Depois, a gente fica nessa puta ressaca de ler. Conheço gente que depois de ler José de Alencar nunca mais tocou num livro. Sério mesmo. E olha que o Zé de Alencar tem até umas coisas legais da fase indianista....

Mas em geral os livrinhos da escola são todos muito limpos, muito leves, sem ferir ninguém (como diz o Belchior...). Um saco, na verdade!

Uma maneira rápida e segura de traumatizar possíveis leitores.

Mas vamos ao livro do Fante. A oeste de Roma é um livro dividido em duas novelas. A primeira, mais longa, e a segunda, um pouco rápida. Ambas com um fôlego fantástico.

Na primeira temos a saga de um pai, escritor meia-boca, que vê seus quatro filhos saírem de casa, amargando suas próprias derrotas pessoais. Na segunda, uma família extremamente católica corrompida pelo espírito sutil do dinheiro e do sexo.

A maravilha, entretanto, está no fato de Fante ser um brilhante narrador. É extremamente inteligente e mordaz. Além de possui um humor que eu nunca vi em nenhum outro escritor.

Resumindo: estou apaixonada! Hehe

E ainda não me chegou às mãos o Pergunte ao pó.... sua obra “mais mais” que eu quero ler de qualquer jeito.

Saco.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

CINEMA ALONE!


PRECIOSA...

Ontem fui ao cinema sozinha. Eu quis ir sozinha.

Sabe aqueles filmes que vc nunca sabe bem o que pode acontecer com vc depois que acabar? Então... eu pensei que seria algo do tipo. Não foi. Foi tudo muito tranqüilo e eu não tive nenhuma reação adversa. A princípio.

Na hora fiquei apenas imaginando se aquilo seria baseado em uma história real, porque era muito sofrimento para uma pessoa e tal. Mas depois, friamente, imaginei que existem muitos tipos de sofrimento e que ninguém pode medir o inferno do outro. Nem pra mais, nem pra menos. E mais depois ainda descobri que a história é baseada no livro Push, da ativista negra Sapphire.

Resumindo a história, Preciosa é uma garota semianalfabeta, aos 16 anos de idade, grávida do segundo filho, ambos frutos da violência sexual cometida pelo pai desde os seus três anos. No filme, fica subentendido também que a própria mãe lhe abusava sexualmente...

É obesa, apanha da mãe, é obrigada a mentir para o serviço social para receber um auxilio financeiro que não vê nenhum centavo. Sua primeira filha tem síndrome de down.
E, pra terminar, seu pai (estuprador) morre e sua mãe ao dar a notícia lhe comunica que ele era portador do vírus HIV. Pouco tempo depois preciosa descobre que também tem o vírus.

Mas apesar dessa história terrível, o filme não a retrata por uma perspectiva triste. Trata-se de uma história de superação, sem a afetação dos filmes de hollywood. Não há excessos. Nem para o mal, nem para o bem. Não há lamentação excessiva, nem exaltação onde não cabe.

È tudo muito sóbrio. Real. Parece um pouco com o personagem Bazarov, do livro que eu estou lendo... Pais e Filhos, de Turgueniev. Mas isso é outra história.

O que me chamou a atenção é que o enredo é composto de maneira tão real que não há espaço para drama, desespero ou qualquer outra coisa. É a vida. Prontoacabou.

Segundo Sapphire, esse sofrimento do livro é baseado na mais pura realidade. Ela recolheu as histórias quando dava aulas no bronx.

Vou ler o livro. Fiquei com vontade... Fiquei pensando também que Sapphire, que está na lista de os 20 livros mais vendidos de Nova York, encontra em Alice Walker (A cor Púrpura) e Toni Morrison (O olho mais azul) antecessoras de peso.

Histórias tristes, mas reais. A vida é real. E a única coisa que temos de fazer é seguir em frente... um passo de cada vez.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

FICHAMENTO N.O 3


O velho e o mar, de Ernest Hemingway



Tô tensa.

É que criticar a Fernanda Takai, literariamente falando, não é a mesma coisa que criticar Ernest Hemingway. Ou é?

Bom, o que eu sei é que eu nunca havia lido nada do lendário escritor da geração perdida. Nadinha.

Então eu fui começar justamente por aquele livro que é considerado a sua obra-prima: O velho e o mar.... (ganhador, inclusive, do prêmio Pulitzer de 1953...)

Daí, vcs podem perceber o por quê da tensão...Simplesmente eu não tenho as melhores coisas a falar um livro que é considerado obra-prima de um autor que é considerado genial.

Mas graças ao grande Nelson Rodrigues eu posso ficar em paz comigo mesma, afinal “Toda unanimidade é burra!”.

Sinceramente: achei médio. Bem médio mesmo. (e agora que caiam as pedras na Geni ...rs)
É claro que ando desconfiando do tradutor, mas a probabilidade maior é a de que eu não gostei porque não gostei, e pronto.

A história é boa. O narrador tb. O ritmo é melhor ainda. É o tipo de livro que você lê com uma espada no pescoço. Dá até falta de ar, vez em quando.

Mas então o que foi que eu não gostei?
Deixa eu explicar isso aqui. O que me fez desgostar do livro não é algo que exista nele, mas é o que deixou de existir... Sério.
Pela mística toda criada em torno do Hemingway, achei que ele poderia ter feito mais. EXPECTATIVA é uma bosta, né?

O enredo conta a história de Santiago, um velho e sábio pescador que passa 84 dias sem pescar nada, até dar de cara com o demônio em forma de peixe. Na verdade, não há qualquer alusão sobre o coisa ruim, mas o peixe de mais de 50 metros de comprimento travará uma luta infernal com o pobre pescador.

Talvez Heimngway quisesse dizer algo de como é o próprio processo de escrever... de como é lutar com um diabo dentro e fora do próprio corpo. Talvez eu comece a entendê-lo melhor...Talvez eu tenha gostado do livro mais do que eu e o meu demônio sabemos... Talvez.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

DIA 10 DE ABRIL DE 2007


Era uma tarde absolutamente normal: preguiçosa e inútil como todas as tardes daquele ano, exceto pela nova perspectiva que se abria ainda timidamente.

Depois de um longo e tenebroso verão, seu orientador dava sinais de que poderia lhe tirar do limbo existencial e de que teria algum prazer em continuar suas pesquisas sobre literatura e música e essas coisas todas que a gente chama arbitrariamente de cultura.

Ao seu lado sentava Paulinho, amigo de trabalho e confidente. Entre assuntos futebolísticos e lampejos de maldade vespertinos, pairava um silêncio na sala. Era apenas nesse instante em que Luiza e Paulinho se afastavam mundos de distância para alimentar suas necessidades “internetísticas”.

Luiza vivia um momento especialmente bom. Aquela coisa toda de autoconhecimento, fome de informação, intimidades com os amigos, ampliando o círculo de pessoas realmente interessantes, disposição para viver...

Além disso, começavam os primeiros questionamentos que a libertariam de uma doce prisão.

Apesar do caos interior, Luiza estava tranqüila, certa de que resolveria aquilo ainda nos vinte e poucos anos.

Entre uma passadela e outra pela rede, achou algumas coisas relacionadas com a pesquisa. Na verdade, estava mesmo empenhada em levar aquilo adiante. Era um dos universos que se abriam para ela, e havia qualquer coisa de excitante que não a deixava em paz. Queria saber, queria ouvir, queria conhecer... Queria comer com garfo e faca.

Era um bate-papo com algumas pessoas que já tinham chegado muito antes que ela. Oh, minha Nossa Senhora da pesquisa atrasada, será que eu tenho pique de sair do centro da necrópole e ir assistir um bate-papo, desses que a gente não pode falar nadinha, porque só quem conversa é quem já chegou na casa 8 da estradinha?

Por uma trama mal feita do destino, enquanto Luiza pensava em “ser ou não ser, eis a questão”, recebe uma ligação que pode ter mudado todo o resto da sua vida:

- E aí, sua louca, tudo bem?
- Ah, tirando o ruim, o resto tá bom, né?
- Então, vamos num show do Zeca Baleiro?
- Quando, Rê?
- Semana que vem .... mas tem que ir comprar o ingresso hoje.
- Ah, sério mesmo? È que eu tenho um bate-papo pra ir... sobre a minha pesquisa... Aquela lá do Itamar, te falei?
- Quem é Itamar?
- Ah, deixa pra lá...
- Que horas é seu bate-papo? É rapidinho... a gente compra ali no Sesc Vila Mariana mesmo.

Caralho. O pseudo bate-papo era justamente no Sesc Vila Mariana.
Depois disso não houve mais resistência da parte “preguiçal”, afinal de contas sinais eram sinais, e estava muito claro que o universo queria que Luiza parasse de enrolar e tirasse definitivamente sua bunda gorda da cadeira e começasse a escrever alguma coisa que prestasse sobre seu objeto de pesquisa.

O que Luiza não sabia era que estava prestes a conhecer um outro objeto. Muito mais fálico e muito mais fatal.

“17h, e eu começo a ser feliz. 17h15, I want to be free. 17h30: hora de cair fora, respeitando o fuso horário. Merda, sou proletário”.

Antes de encontrar Renanda, Luiza passou pelas mesmas vitrines cotidianas, olhando tudo com os sentimentos de sempre: ora desdém, ora desejo acompanhado de um sacode “vc não pode comprar isso agora”.
Mesmo assim não resistiu e entrou numa lojinha de sapatos, onde havia escrito em letras garrafais a palavra mais milagrosa que ela conhecia: L I Q U I D A Ç Ã O!

Eliana, sua chefe e incentivadora de consumo, estava bem ali, dando o maior apoio para a compra de um tênis all star laranja fosforescente.

Como já estava atrasada, comprou o tênis e pagou. Um minuto depois se arrependeu: “onde é que eu vou usar este tênis, minha nossa senhora das compras desperdiçadas?”

Bem, se o problema era esse, resolveu resolver ali mesmo: tirou o tênis gasto e calçou o laranjão que, sendo novo, era ainda mais laranja e brilhante e fosforescente.

Assim que saiu da loja, sentiu o mundo olhando para seus pés. Mas, e daí? Luiza não era menina de obviedades... Nunca fora.

Entrou no metrô, e só foi lembrar de que estava com uma laranja incandescente nos pés quando encontrou Renanda:

- Meu Deus, como vc tá moderninha!
- Ô! Você nem sabe como...

Compraram o ingresso e Luiza ainda insistiu:

- Rê, vamos à palestra comigo.
- Não dá, amiga. Tô com fome e nem sei quem é esse tal aí da sua pesquisa... mas boa sorte. E não se esqueça de que semana que vem vamos o Baleiro.

Entrou na sala de bate-papo. “Nossa, tudo isso de gente conhece o Itamar? Meu Deus, eu devo ser uma ignorante mesmo. Em que país do axé eu estava todos esses anos?”
Na verdade não tinha muitas pessoas, mas Luiza que sempre achara que tinha bom gosto musical nunca tinha ouvido falar de Itamar até a alguns meses... como tanta gente assim sabia dele? É... realmente eram universos novos que se abriam.

De repente, ao lado, um desses monitores do Sesc. Lindo. Lindinho, na verdade.
“Puts, hoje era dia de eu querer usar um tênis laranja fosforescente?”.
Sentiu vergonha e tentou encolher o pé.... mas percebeu que não dava pra se esconder um pé número 39 assim impunemente.

Começa o bate-papo. Exatamente como ela previra, com algumas variações. O assunto era legal. As informações pipocando na caderneta. Entre uma fala e outra, pausa para uma olhadela no lindinho do Sesc. “Meu Deus, vou trocar de tênis. Mas e se ele já reparou este laranjão? Vai achar que eu não tenho personalidade...”

De repente, uma fala mais eloqüente. Um cabeludo no palco. Escritor. Um livro que tinha muito a ver com tudo o que Luiza queria saber. Mais eloqüência... uma força pessoal impressionante. Esqueceu o lindinho do Sesc. Concentrou-se no Cabeludo.

Ao final da conversa, Luiza queria comprar o livro, mas lembrou-se de que era pobre e não tinha assim R$ 50,00 na carteira para uma eventualidade. Eventualidades de Luiza se resumiam a esquecer o bilhete único em casa... e então levava sempre consigo 10 dinheiros, o que era o suficiente.
Por um instante, lembrou-se de uma expressão de um amigo do mundo gay: será que ele aceita cu? Não, não poderia propor o cu. Pelo menos, não logo de cara.

- Será que eu poderia pegar seu contato? É que eu gostei muito do livro, mas não tenho dinheiro agora.?
- Claro, anota aí.

Passou email. Telefones. E uma senha para o céu e o inferno.

Naquele instante, Luiza nem podia imaginar o tudo que viria pela frente. Na verdade, Luiza não podia imaginar nada. Estava tomada por aquele sentimento que imbecializa as mulheres. Só uma coisa ficou em sua cabeça pelos anos seguintes: “Será que ele percebeu o meu tênis laranja?”

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

FICHAMENTO n.o 2



1933 foi um ano ruim, de John Fante

Esqueçam todos os heróis de livros adolescentes: Holden Caulfield, Rusty James, o Motoqueiro, Ponyboy.... ninguém chega aos pés de Dominic Molise, de 1933 foi um ano ruim, de John Fante.

Caramba, que livro engraçado! Eu me diverti deveras andando de uma linha a outra do metrô. Em alguns momentos, eu até gargalhei (loucamente, na frente daquelas caras plácidas que andam por aí no transporte publico de são Paulo).

Mas deixa eu explicar isso direito: não é uma história engraçada, não é nada leve... Pelo contrário: é mais um livro que traz o desespero da flor da nossa juventude aos 18 anos. Mas John fante é primoroso; este sim primoroso.

Pra falar a verdade, o cara é brilhante. É aquela coisa que você lê e dá uma puta inveja de não ter sido você o escritor, manja?

E isto porque eu ainda não li o seu Pergunte ao pó, cujo personagem é Arturo Bandini, um outro jovem arruinado que sonha em ser escritor (oi? Qualquer semelhança é mera coincidência!)

A história é basicamente isso: um garoto pobre, filho de imigrantes italianos, em plena recessão, que sonha em ser jogador de basebol. Seu pai, no entanto, quer que ele se torne pedreiro, como ele.

No meio da trama, deliciosos “diálogos” de Dominic consigo mesmo, num exercício de pensamento livre fodido. Resumindo: MUITO BOM.

Agora, quero ler Pergunte ao pó. E bem rápido. Sem procrastinar.